A lua, o silêncio e o manjericão

Giuliana Capello – 18/03/2014 às 11:05

manjericao
Dias atrás um diretor de cinema me perguntou: “qual é o som do lugar onde você mora?” Respondi que era o silêncio. Eu adoro o silêncio. E, aqui, ele reina soberanamente, mas não chega a ser excêntrico: divide espaço, vez ou outra, com o joão-de-barro, o tico-tico, pica-pau, bem-te-vi, sabiá, tiziu e tantos outros. E tem ainda os grilos, os sapos da noite, as corujas. Em dia de chuva, os trovões também aparecem, assim como o vento, que adora as madrugadas.

Durante o dia, tem o trator, a roçadeira, o martelo e a serra elétrica. Tem, às vezes, um rádio, um chamado do vizinho, um latido, aviões, pneus derrapando no chão de terra e pedra. Mas, ainda assim, arrisco dizer que o som predominante é o silêncio. Mas não um silêncio qualquer. Um silêncio que se impõe de maneira profunda e apaziguada, sem oprimir.

O lugar que escolhi para viver é assim: feito de silêncio. Mas um tipo de silêncio que estimula a escuta consciente, incentiva nossa percepção do entorno, das coisas que acontecem ao nosso redor. Quem interrompe o silêncio precisa até de permissão. Não se toca em coisa sagrada assim, sem um bom motivo…

No tempo que estou aqui, percebo que aprendi a ouvir mais, porque dei espaço para o silêncio em mim. Fiz as pazes com os dias calmos, em que posso contar quantas vezes me manifestei através da fala. E nem por isso senti-me calada…

Pois o mato, além de ouvir, também me ensinou a ver as coisas óbvias, que passam todos os dias por nós e, no entanto, têm a beleza do inusitado, do único, do inimitável. A lua cheia do último domingo, por exemplo! Um escândalo! Dava quase para senti-la pulsar, de tão viva. Foi um luar dos deuses, um momento para guardar na memória das coisas que deixam a vida mais intrigante. Quando ela apareceu, por detrás das montanhas, em tons de amarelo, vermelho e laranja, e ainda sob o céu de um azul intenso, iluminado, não foi possível fazer mais nada. Cabia apenas contemplar. Em silêncio e gratidão.

A lua está sempre ali para nos ensinar sobre a brevidade das coisas, sobre a impermanência, o desapego à forma material, a abertura para o novo. Ela é única a cada noite e isso não a abala nem um pouco. Ontem, ela nem pôde aparecer, por causa das nuvens que trouxeram a tão esperada chuva…

Aqui, do lado de cá das praticidades e das máquinas que povoam a vida urbana, a natureza é grande mestre. Mas é preciso querer aprender com ela, ou haverá frustração, medo e repulsa.

A velocidade aqui, não dá para negar, já não é mais a mesma de tempos atrás. O fogão a lenha ficou reservado para os dias de festa em família, os carros substituíram as carroças puxadas a cavalo ou boi. A televisão, a internet, o iPhone, o tablet, o GPS, a música eletrônica e os macarrões instantâneos estão por quase toda parte – ainda que sem muito sentido.

Mas, para quem ainda quiser, é possível experimentar dias e noites diferentes, sem luzes artificiais nas ruas, sem delivery no jantar, sem caixa eletrônico 24 horas, sem comércio para visitar depois das 18h. Ou, em outras palavras, com o céu forrado de estrelas, com sopa de legumes da horta à noitinha, com amigos que fazem o dinheiro ser dispensável nas horas de lazer e o consumismo parecer ainda mais absurdo e desconectado do nosso mundo.

Por que mesmo estou aqui? Esta é a pergunta que me faço com frequência, e para a qual tenho respostas diferentes de tempos em tempos. Agora, por exemplo, sinto que minha opção é um jeito de observar o que estamos deixando para trás, ao escolher o caminho das cidades altamente adensadas, em diversos sentidos. Será que não daria para manter algumas das coisas boas que temos ainda no campo? Por que o caminho em 180 graus? Por que o desprezo ao lugar que abastece as cidades com água e alimentos de boa qualidade, enquanto as grandes cidades devolvem lixo, esgoto e famílias excluídas?

Até meses atrás, minha avó, que há anos não me visitava (eu é que vou até ela, sempre que posso), também não entendia bem por que eu deixei o trabalho bem remunerado da capital, a casa bem localizada, a tv por assinatura e outras “comodidades”, para viver num lugar em que os mais desavisados só conseguem ver o que não temos…

Até que ela passou uns dias aqui em casa e me ligou ao retornar para o apartamento no litoral: “Sabe que agora eu entendi por que você foi morar aí? Quando entrei em casa, achei minha sala tão pequena, e por onde eu andava só via paredes. Percebi que você tem uma vida muito saudável, perto da natureza”.

Acho que é por aí mesmo. Assim, bem perto do vento e da chuva, do barro e das estrelas, é como se eu pudesse ter mais discernimento das coisas realmente importantes para mim. Sem os excessos e os estímulos da cidade (os anúncios em cada esquina, as capas de revistas com mulheres magérrimas e besuntadas de maquiagem, os apelos para usar o consumo como válvula de escape para qualquer tipo de sentimento ruim etc. etc.), enfim, com o essencial como bênção e não sinônimo de escassez, e tudo isso junto e misturado, vejo que consigo observar mais, absorver mais do mundo e de cada experiência.

E, mais ainda, além do ouvir, do enxergar, o mato me trouxe outro presente: um olfato mais apurado, capaz de me avisar se alguém está perto de casa pelo cheiro do manjericão, esbarrado sem querer, pela roupa de quem chega para me visitar… O manjericão do meu quintal é um xodó antigo, me acompanha há tempos. Aqui, plantei em uma espiral de ervas aromáticas, junto com o alecrim, a lavanda, a erva-doce e o orégano, outros amores.

Uso-o sempre, quase que diariamente, em doses e aplicações distintas. Para dar um sabor especial à salada, para preparar um belo e bom molho pesto, para compor um chazinho de folhas digestivas, para dar mais aroma à lasanha de berinjela da horta comunitária. É esse mesmo manjericão que me ensina que as coisas mais sutis podem ser, ao mesmo tempo, as mais marcantes. Devo essa lição à lua, ao silêncio e ao manjericão – ou melhor, a eles e à minha vida no mato.

Foto: Fernando Stankuns via photopin cc

fonte: http://planetasustentavel.abril.com.br/blog/gaiatos-e-gaianos/a-lua-o-silencio-e-o-manjericao/?utm_source=redesabril_psustentavel&utm_medium=facebook&utm_campaign=redesabril_psustentavel_gaiatosegaianos

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